Até onde deve ir a análise de um anime?

Até que ponto uma obra deve ser analisada? Essa é uma pergunta válida não apenas para animes ou mangás, mas também para praticamente qualquer tipo de produção cultural. E as respostas variam bastante de pessoa para pessoa. Em um extremo, existem aqueles que acreditam que especialmente obras voltadas ao entretenimento (sejam animes e mangás ou livros, filmes, séries, etc.) simplesmente não devem ser analisadas, mas sim apreciadas pelo que são e ponto. Outros acreditam que deve-se analisar essas obras somente até certo certo ponto, observando coisas como consistência do enredo, desenvolvimento dos personagens ou mesmo coisas como a arte, a animação ou a trilha sonora, dependendo da mídia que serve de suporte à obra. Finalmente, existem aqueles que procuram ir o mais profundo possível em uma análise, sempre procurando por mensagens do autor, significados ocultos e simbolismos dos mais diversos.

Qual destas respostas seria a mais correta? Bom, na minha opinião, a resposta seria: depende. Quando se trata de analisar essas obras voltadas ao entretenimento, intenção é a palavra chave. Em suma: com que finalidade, exatamente, se está realizando a análise? O que, exatamente, se procura determinar com ela? A depender da resposta a estas perguntas, responde-se qual abordagem seria a mais adequada. Mas eu imagino que falar apenas isso seja um tanto quanto vago, não? Pois bem, ao longo deste texto eu procurarei justamente esclarecer um pouco isso, tentando demonstrar como, na minha opinião, o objetivo determina a prática. Assim sendo, começarei pelo extremo negativo: o argumento de que simplesmente não se deve analisar obras voltadas para o entretenimento. Ah sim, um aviso: a partir daqui eu vou me referir sobretudo a animes e mangás, pois, bem, isso aqui é um blog de anime e mangá, afinal ^-^’. Apesar disso, acredito que as considerações apresentadas podem servir bem a qualquer obra voltada ao entretenimento, com talvez apenas alguns pequenos ajustes se necessário. Então, sem mais delongas, comecemos.

Apesar de ser visto em diversas ocasiões e lugares, de fóruns a páginas no facebook ou vídeos no youtube, o argumento de que animes e mangás devem ser apenas apreciados, e não analisados, é normalmente bastante criticado, com o contra-argumento geral sendo que tal posição simplesmente lhe cega o senso crítico. Isso normalmente ocorre pois este é um argumento usado justamente quando um anime já está sendo analisado. Explicando melhor, a situação normalmente se desenrola da seguinte forma: inicia-se uma crítica a um dado anime ou mangá, por qualquer que seja o motivo (plot cheio de furos, personalidade inconsistente das personagens, ou qualquer outro motivo); uma discussão se inicia, com ambos os lados tentando mostrar a validade ou invalidez da crítica; finalmente, surge alguém que diz que o anime não deve ser analisado, apenas apreciado e se não gostou que pare de assistir. Existe também uma outra situação bastante comum, mas eu vou tratar dela mais adiante, por hora nos atenhamos nesta.

Na situação descrita acima, de fato falar que o anime não deve ser analisado é perigoso. O contra-argumento de que isto é basicamente não ter senso crítico é bastante pertinente. Críticas são sempre necessárias. Sem que alguém lhe aponte os erros, uma pessoa, industria ou mesmo toda uma sociedade vai simplesmente seguir fazendo o que considera padrão. É pela crítica que as coisas podem mudar de forma a agradar a um maior número de pessoas, então argumentar que ninguém jamais deve analisar criticamente a uma obra, mas apenas apreciar ou não, é uma postura perigosa. Mas isso não significa que essa posição não possa ser levado a cabo em âmbito mais pessoal e circunstancial. Quantos de nós já não nos referimos a um anime ou mangá como uma obra para “desligar o cérebro e aproveitar”, ou algo do gênero? Quantos de nós já não seguimos assistindo obras que sabemos serem cheias de problemas e defeitos, mas que ainda nos agradam exatamente na medida em que precisamos? Pois bem, aqui faz perfeito sentido falar que não há por que analisar a obra. Se sua única preocupação é se divertir, e se o anime ou mangá está lhe proporcionando exatamente essa diversão desejada, não há por que parar para pensar em cada possível furo de roteiro ou inconsistência de personagem. Apenas… aproveite o show. A situação muda, porém, quando a intenção deixa de ser apenas se divertir.

Digamos que alguém afirme que um dado anime é bom ou ruim. Para sustentar tal colocação, é preciso ir além de apenas dizer se gostou ou não do mesmo. É neste momento que é conveniente analisar uma obra do ponto de vista da crítica literária. A obra possui um plot consistente? As personagens são bem trabalhadas? O enredo se desenvolve em uma boa velocidade? Existe uma série de elementos de cunho mais técnicos que podem ser usados para determinar, objetivamente, se um anime ou mangá é bom ou ruim. É conveniente dizer, porém, que ao analisar criticamente uma obra, é importante levar em considerações aquilo que a mesma se propõe a fazer. Por esse motivo, é difícil falar em critérios absolutos para se analisar um anime ou mangá objetivamente. Por exemplo, ainda que via de regra um personagem ser demasiado caricato possa ser visto como algo negativo, uma obra de comédia ou sátira pode usar e abusar de personagens caricatos, se bem empregados, sem qualquer problema. Outro exemplo é bastante comum em slice of life: ainda que via de regra uma história muito lenta ou arrastada seja ruim, um anime mais voltado para as relações entre personagens pode ter um plot bastante lento sem muitos problemas. Em suma, cada caso é um caso.

Um pequeno parênteses nesse ponto: o problema com esta visão surge, a meu ver, quando uma pessoa tenta usar de argumentos objetivos de porque uma obra é boa para lhe convencer do porque você deve gostar da dita obra. Gosto é algo total e completamente subjetivo e gostar ou não de algo não se deve a obra ser boa ou ruim, mas sim a se aquela obra em particular proporciona à pessoa as emoções que ela deseja sentir. Assim sendo, é perfeitamente normal gostar de obras objetivamente ruins, bem como desgostar de obras objetivamente boas. Dragonball Z é um excelente exemplo do primeiro caso: apesar de ter um plot repetitivo e com diversos furos, além de personagens bastante rasos, o anime e mangá atraíram e atraem uma série de fãs. O fato de Dragonball Z ter problema significa que todas essas pessoas deveriam parar de gostar do mesmo? Obviamente que não.

Mas voltemos à temática principal, tratando agora do outro extremo. Me refiro, aqui, àqueles que procuram observar simbolismos, mensagens ou significados nas obras, buscando ir além dos elementos puramente técnicos em suas análises. E desde já é bom começar com uma pequena crítica: isto é algo muito perigoso de ser feito. Isso porque pode gerar muito facilmente a chamada “overanalysis”, ou seja, ver além do que realmente está ali. Um caso clássico disso são as diversas teorias que tentam explicar o simbolismo religioso em Neo Genesis Evangelion, sendo que já chega a ser de conhecimento comum que o próprio autor já afirmou que esse simbolismo foi colocado apenas para dar um “diferencial” à série, não tendo qualquer significado profundo ou especial. Ainda, são momentos como este o segundo exemplo mais comum de uma situação em que surge o argumento de que uma obra não deve ser analisada. Isso não significa, porém, que toda e qualquer tentativa de ver esses elementos esteja fadada à frustração. Muito pelo contrário, aliás.

Para entender o que quero dizer, basta olhar o subtítulo deste blog: “nenhuma história é ingênua”. O que eu quero dizer com isso (para aqueles entre vocês que nunca nem pensaram em clicar na aba “sobre” u.u) é que nenhuma história é escrita no vácuo. Um autor é, acima de tudo, membro de uma sociedade. Sociedade esta cujos costumes serão certamente exaltados ou criticados na obra do mencionado autor. Neste sentido, uma obra de ficção que aparente ser “apenas para divertir” pode carregar consigo diversas mensagens de cunho político, ideológico, social, e por ai vai. Um exemplo pertinente seria a primeira temporada de Baka to Test: conhecido por ser um anime de comédia que beira ao non sense, a primeira temporada tem implícitas diversas críticas ao sistema escolar japonês, em especial à valorização dos resultados (aka. notas altas) acima de tudo. Outro exemplo seria o anime Kill la Kill, que apesar de conhecido como um anime de ação e aventura marcado por altos exageros foi alvo de diversas análises que, observando os diversos simbolismos que a obra emprega, apontaram como o anime trata da passagem da infância para a adolescência e a vida adulta.

Ainda, uma obra pode trazer em si mensagens que o próprio autor nunca pensou ativamente em passar. Animes e mangás de comédia são um excelente exemplo. Apesar do que podemos imaginar, a comédia não é algo auto-evidente. O que é engraçado em um determinado tempo ou espaço pode vir a ser mesmo hediondo em outro. Um exemplo prático seriam as antigas piadas com negros ou homossexuais, hoje vistas como piadas racistas e homofóbicas (o tipo de piada que normalmente vem acompanhada de dizeres como “ser rir vai pro inferno”, por exemplo). Analisar esse tipo de coisa, analisar os valores que a obra tenta passar ou condenar, pode dizer muito não apenas sobre seu autor, mas sobre o contexto social em que a dita obra foi produzida. O já mencionado Baka to Test, por exemplo, somente poderia surgir em uma sociedade cujos membros são constantemente pressionados a atingir sempre os melhores resultados possíveis.

Para concluir, é bom retomar o que já foi falado mais acima. O quão profunda a análise de uma obra pode ou deve ser está limitada apenas pela intenção daquele que faz a análise. Se a ideia é apenas “apreciar o show”, não há por que ver além do gosto pessoal, procurando determinar se a obra atende ou não a este. Por outro lado, se a ideia é determinar se a obra é objetivamente boa ou ruim é conveniente aplicar elementos da crítica literária a fim de se determinar se é ou não uma história bem desenvolvida. Finalmente, se a intenção for determinar qual o papel social que a obra cumpre ou o quanto a obra reflete a sociedade em que foi produzida é necessário ir além de elementos puramente técnicos. Nenhuma dessas posições é mais ou menos correta do que as outras, e nenhuma delas é mais ou menos ideal. São apenas metodologias diferentes para tratar de problemáticas diferentes, cada uma delas válidas a seu próprio modo.

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2 comentários sobre “Até onde deve ir a análise de um anime?

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