Existem critérios para ser “otaku”?

Esta é uma discussão que costuma surgir especialmente em páginas do facebook e canais do youtube: como diferenciar um “verdadeiro” otaku de um suposto “poser”? Ou a um nível mais fundamental: como determinar se uma pessoa pode ou não ser considerada “otaku”? É uma questão espinhosa. Até pelo fato de que o próprio conceito de “otaku” ainda não está bem delineado no ocidente.

Por muitos anos, o termo foi usado no Japão com um caráter ofensivo, trazendo consigo a noção de “viciado” (em seu sentido negativo, similar a um viciado em drogas ou em álcool, por exemplo), no ocidente a palavra se modificou quando foi adotada pelos fãs de anime como uma forma de se auto-identificarem. Só essa transformação de uma palavra de caráter pejorativo em uma que representada a todo um grupo e que é adotada como motivo de orgulho por todo um grupo já merecia um post próprio, certamente. Mas para os propósitos dessa postagem basta observar que essa transição ainda não está completa. O que é um “otaku” no ocidente? Um fã de anime, apenas? Fã de anime e mangá? De cultura pop japonesa em geral? Ou mesmo da cultura japonesa como um todo? A depender de a quem se pergunte, a definição se amplia ou se restringe. Então como dar regras ou critérios claros para dizer se uma pessoa é ou não otaku quando nem conseguimos ainda dizer o que diabos é “otaku”?

Para além dessa problemática, é comum surgir uma outra questão quando dessas discussões sobre o que seria um otaku “verdadeiro” ou não: quem liga? No final do dia, de que importa se esta ou aquela pessoa está seguindo esta ou aquela regra e se dizendo otaku? “Não é otaku de verdade se não assistiu esse anime”; “só é otaku se viu mais de cinco animes”; “não é otaku, é poser que só vê modinha”; todos estes comentários são bastante comuns em discussões do tipo e a maioria deles poderia ser respondida exatamente com a frase que já mencionei: quem liga? E daí se o cara viu poucos animes ou não viu aquele mais conhecido? E dai se o cara só acompanha a modinha da temporada? Por que eu ou qualquer outra pessoa no mundo deveria ligar para o que esta ou aquela pessoa viu ou deixou de ver? Em suma, qualquer um que pretenda criar regras ou critérios para ser otaku deve, em primeiro lugar, explicar por que essas regras importam, coisa que muito poucos se quer tentam fazer.

Bom, depois de colocar esses dois pontos o leitor já deve imaginar que minha posição a respeito de se existem ou não critérios para ser otaku não é lá muito favorável a tanto. Essa pergunta é tão mal formulada e cai em tantas armadilhas diferentes que seria complicado pular de cabeça e falar “é, existem regras para ser otaku e aqui estão elas”. Mas dizer só isso deixaria o post muito pequeno, então vamos tentar delinear melhor a questão e, quem sabe, respondê-la /o/ E para tanto é preciso começar com os dois pontos acima.

O que é um “otaku”? Como eu disse antes, a resposta a isso em muito depende de o quão xiita é a pessoa que a responder. Alguém que diga ser otaku, mas só assiste dois ou três animes na temporada provavelmente dirá que basta gostar de animes e pronto, você é otaku. Já o cara que encheu a mochila de bottons e chaveiros, tem no guarda roupa só camisetas de animes, assiste todos os animes da temporada e tá acompanhando uns vinte mangás ao mesmo tempo provavelmente dirá que é preciso um pouco mais do que só ver alguns animes. Qual dos dois seria o “verdadeiro” otaku? Bom, na minha opinião, a resposta seria: os dois. Mas não porque seguem ou creem em um conjunto de regras que os definam como otakus, mas sim por uma questão mais fundamental: eles se identificam como tal.

Para entender o que quero dizer é preciso que entendamos um elemento fundamental do que são otakus: eles são uma “tribo urbana”. A diferença disto para qualquer outro grupo social é gritante e não deve ser minimizada. Por exemplo, a nacionalidade de uma pessoa, a permissão para uma pessoa se dizer ou não como pertencente a um dado país, está galgada em uma série de mecanismos e documentos legais. Falar sobre um brasileiro “poser” não faz o menor sentido: tendo os documentos que o comprovem como tal, uma pessoa é brasileira e ponto. Quando falamos de “tribos”, porém, a coisa muda. A própria figura do “poser”, por exemplo, é algo que só pode existir em “tribos”. De Roqueiros a Nerds ou Otakus, não existe qualquer espécie de “cartão de sócio” para integrar esses grupos sociais. Nenhum documento pode atestar, para além de qualquer sombra de dúvida, que uma pessoa é otaku. Daí a importância da auto identificação. O primeiro passo para qualquer pessoa ser vista como “otaku” é ela própria se ver como tal. Uma pessoa pode ver quatro ou cinco animes e já se considerar otaku. Outra pessoa pode ter visto mais de cem e ainda dizer que é apenas um fã de animes, ou mesmo um fã daqueles animes em específico (ou mesmo de um estúdio ou de um diretor em específico, aliás), mas não um otaku. Infelizmente, porém, a simples auto-identificação raramente é o bastante para os outros membros de uma tribo urbana, seja ela qual for.

Deixem-me usar de um outro exemplo agora: torcida de times de futebol. Aqui não existem documentos legais que digam que uma pessoa é corintiana ou palmeirense (embora, é verdade, existe a figura do “sócio do clube”, onde uma carteirinha pode, efetivamente, indicar uma pessoa como pertencente a uma dada torcida, a um dado grupo social), de forma que a auto-identificação como tal, o falar “eu sou corintiano” ou “eu sou palmeirense” já basta. Se uma pessoa te falar “eu sou palmeirense” você provavelmente não vai questionar. Novamente, quando falamos de “tribos” essa situação muda. Como eu disse, quase nenhuma tribo aceita a ideia de que basta uma pessoa se dizer como pertencente a ela para que isto seja verdade. Isto porque essas tribos urbanas tem uma lógica muito mais próxima daquela referente ao pertencimento a um país do que aquela referente ao pertencimento a uma torcida de futebol.

Ok, deixem eu explicar isso melhor. Estas “tribos” normalmente surgem do agrupar de pessoas com um mesmo gosto. Este gosto, via de regra (e aqui é uma visão minha mesmo, eu posso estar bastante equivocado), é amplo. Vejam, por exemplo, os roqueiros ou metaleiros: o universo musical do rock e do metal é extremamente vasto e diversificado. O mesmo se aplica aos otakus: ainda que fossemos assumir a definição mais restrita, de puros fãs de animes, a cultura otaku ainda estaria sedimentada em uma base tão larga e diversa que poderia ainda atrair para si as mais diferentes pessoas. Esta base ampla é importante, pois cria, a meu ver (de novo, praticamente esse parágrafo inteiro é pura especulação, então lamento se estiver falando muita bobagem x_x), uma situação que favorece o convívio e a conversa. Quando você tem duas pessoas que gostam de um mesmo time de futebol, é pouco provável que a conversa entre ambos progrida muito naquele campo:

-Viu o jogo da semana passada?

-Pô, vi sim, muito bom

Fim da conversa

Em grande parte é isto o que acontece. Claro, a conversa sempre pode desandar para outra direção e logo estão os dois falando sobre o último filme que saiu no cinemas, mas aqui é justamente onde cai o meu ponto: saiu-se do assunto original que, em tese, seria o ponto de sustentação de um grupo social (isto é, seu time de futebol). Quando você tem uma base ampla, porém, a conversa segue. Duas pessoas podem começar a falar sobre o último anime que viram, passar para outras obras do mesmo estúdio ou diretor, seguir para o quão boa era a musica de abertura de uma dada série e terminarem falando sobre algum mangá recente ou antigo. Em todo esse percurso, em nenhum momento o assunto que seria a base de sustentação daquele grupo social foi alterado. Ao mesmo tempo, toda essa linha de conversas permite passar por pontos que outros gostos ou hobbys não conseguiriam. Ao falar sobre as obras que mais lhe agradam, sobre como se identificou com este ou aquele personagem, sobre qual é a sua interpretação sobre este ou aquele mangá, uma pessoa acaba por se expor bastante. Acaba por revelar bastante sobre si. E quando você está em um grupo que faz exatamente o mesmo, a tendência é que as pessoas formem entre si um laço muito mais próximo do de uma “comunidade” do que do de um simples agrupar de pessoas.

Este sentimento de comunidade, de pertencimento a um grupo, a meu ver, é exatamente o que explica por que tantos auto-intitulados otakus sentem a necessidade de criar regras para ser um. E é aqui que eu entro no segundo ponto que eu mencionei acima, aquele do “quem liga”. Essas pessoas ligam. Ao se sentirem como pertencentes a uma comunidade, qualquer elemento que possa minar ou prejudicar essa comunidade, que possa, por exemplo, trazer má fama a eles próprios, é hostilizado. E daí surgem essas regras, regras pensadas (certamente de forma até inconsciente) de forma que aqueles que já estão na comunidade se encaixem nelas, mas que dificultem a entrada ou aceitação daqueles que não as cumprem de antemão ao querer se dizer parte desse grupo social. É um pouco complicado, mas o que eu estou querendo dizer é que essas regrinhas ou critérios para dizer se uma pessoa é otaku ou não são uma espécie de mecanismo de autodefesa e de mecanismo de auto-afirmação. Se qualquer pessoa no mundo pudesse se dizer otaku sem que para tanto houvesse qualquer critério mínimo, o termo se esvazia de significado. Se todos são, ninguém o é: o termo deixa de poder definir um grupo social específico. E é contra isso que os membros desse grupo criam regras. Em suma: para a enorme maioria dos fãs de anime e mangá mais casuais, essas regras não significam absolutamente nada. Mas elas tem uma importância para o grupo que as cria enquanto mecanismo de auto-preservação. O grande problema é que aqui nós chegamos em um empasse.

Pergunte a qualquer otaku o que significa ser otaku: ele dará uma definição na qual ele se encaixa. Pergunte a qualquer otaku que acredite haver critérios para dizer se uma pessoa é um quais seriam esses: ele dará critérios nos quais ele próprio se encaixa. Então… Como proceder? É complicado, porque acaba que criando um beco sem saída objetiva. No final, a resposta para ambos fica como um puro e simples “depende”. O que é um otaku? Depende de pra quem você perguntar. Como vou dizer se sou otaku ou não? Depende de pra quem você perguntar. Quais os critérios para ser otaku? Depende de para quem você perguntar.

Porém, se fosse para dar uma resposta a estas perguntas, eu diria o seguinte: na minha opinião, e tomando por base as diversas discussões e comentários a respeito do tema que eu já vi, ser otaku é ser fã, de alguma forma, da cultura pop japonesa. Esta definição, porém, tem lá suas nuances. Eu acredito que o cara que só assistiu um anime na vida é um otaku, mesmo que ele fale que tanto? Bom, mais ou menos. Na minha visão é uma pessoa que é fã daquela obra em específico, não de toda uma mídia (como no caso dos animes) ou de toda uma parcela da cultura japonesa (que englobaria anime, mangá, cosplay, e por ai vai). Obviamente, esta noção é uma armadilha por si só. Não existe um ponto seguro para traçar uma linha que divida o fã de meia dúzia de obras do otaku em si. Mas ao mesmo tempo eu também levo muito em conta a questão da identificação: se o cara se diz otaku, quem sou eu pra contestar? É de se supor que a pessoa sabe o bastante de si para dizer se é ou não, então o que eu tenho a ver com a vida do cara? É complicado e nem sei se um balanço ou síntese dessas duas noções, ou mesmo um diálogo entre elas, é possível (em grande parte também porque eu usei de exemplos excessivamente exagerados: vamos e venhamos, quem se diria otaku só tendo visto um anime na vida, poxa?). Talvez a vontade por conhecer mais fosse um critério passível de ser adotado, de forma que mesmo que o cara só tenha visto um anime na vida se ele tiver vontade de conhecer mais eu não veria problema nele se considerar otaku. Mas ai complica para o lado daqueles que se dizem otaku por conta das séries que assistiam antigamente, mas que não tem interesse algum nas obras do momento presente (os “otakus saudosistas” ou “nostálgicos”, como alguns falam). Dai teria de levantar a questão sobre o que conta mais para se dizer otaku: se a bagagem anterior, a vontade de conhecer mais, ou se ambos teriam o mesmo valor.

A única coisa que eu consigo concluir dessa linha de raciocínio é que esse é um assunto ainda muito complicado para se tratar. Muitas peças do quebra-cabeças ainda estão faltando. A cultura otaku ainda é relativamente recente e foi especialmente após o advento da internet que seus membros, bem como as diferentes visões de seus membros, começaram a se encontrar e mesmo a se chocar. Em suma, este é um grupo que precisa se desenvolver mais, se definir mais e se entender mais muito antes de se quer ser possível questionar se existem ou não critérios para se pertencer a ele. De minha parte, porém, e falando como alguém que acompanha essas mídias (anime, mangá, vocaloids, etc) de forma casual, eu não vejo qualquer necessidade ou vantagem em tentar se estabelecer regras de como os otakus devem ou não se comportar, assistir, vestir ou o que for.

Anúncios

3 comentários sobre “Existem critérios para ser “otaku”?

  1. Eu gosto da definição do Patton Oswalt, que usa “otaku” em um contexto completamente ocidental para se referir a uma forma de consumir cultura, não exatamente ao conteúdo da mesma. Óbvio, tratando-se de cultura japonesa essa condição é só necessária, não suficiente, mas eu a acho legal por colocar o foco no sujeito, não na mídia. O artigo é esse aqui:

    http://www.wired.com/2010/12/ff_angrynerd_geekculture/

    Ela também vai ao encontro de definições criadas por antropólogos para tipificar fãs “casuais” e “hardcores”. Por exemplo, nesse trabalho:

    https://mitpress.mit.edu/sites/default/files/titles/free_download/9780262013369_Hanging_Out.pdf

    Curtido por 1 pessoa

  2. BOM devemos sempre lembrar de uma coisa OTAKU para os japonese sempre será o viciado em qualquer coisa, ou o holic da vida, se vc abordar a palavra por este caminho você chega em uma solução simples, sem problemas, mas eu não gostaria disto por isto vou pelo caminho mais difícil.

    A outra abordagem foi bem comentada no post o que seria otaku no nosso meio? a resposta pode muito bem ser retirada por analogia de um grupo muito mais complexo, que seriam os Gangster.

    Tomemos por exemplo para ser Gangster, você tem que querer ser um, depois disto precisa mergulhar no meio deles, que seria de crimes, mortes e tudo mais, porém ainda sim você precisa de confiança, seus amigos tem que confiar em você, ou seja para você ser um Gangster seus amigos tem que olharem para você como um, e é aqui onde mora o valor do termo, a resposta é exatamente simples para o questionamento deste post.

    Para responder a pergunta o que é um Otaku? ou qual as regras para ser um otaku? depende de quem você quer que te aceite? (Você quase falou isto quando disse sobre como cada um tem sua definição de otaku), por exemplo você quer se otaku na sua faculdade que só tem mais 5 cinco pessoas? Então é só ver um anime por temporada, que talvez seus amigos te vejam como um, agora se você ir numa feira de animes e encontrar com pessoas que passam mais de 5 horas vendo anime por dia, provavelmente eles querem que vc faça o mesmo para ser como eles, e então vc não será um otaku.

    Realmente existem critérios e cada um tem o seu, e para vc ser aceito no grupo vc tem que passar por todos estes critérios pessoais de cada um, para ser reconhecido como um otaku, pois só assim será mantido o valor da palavra.

    … bom no geral o post teve uma ideia bem legal, vc tentou ir na raiz do conceito e construir a partir dali foi bem interessante.

    Vale ressaltar otakus são um tipo de tribo, e não uma união, cada tribo tem seus valores e conceitos diferentes, convergindo num único ponto cultura japonesa.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s