O que traduzir?

Quando um novo mangá está para ser lançado no Brasil, grande parte dos fãs deste engolem em seco. E isto fazem os mais otimistas: há sempre aqueles que não escondem o quão profundamente machucados a perspectiva de ter seu mangá favorito nas mãos de qualquer editora brasileira os deixam, esbravejando que a dita editora irá “arruinar” o mangá. O motivo de tanta insegurança? A tradução. Algo que, para muitos, parece soar como um sinônimo de “blasfêmia”.

Pode parecer um exagero de minha parte, mas é o que de fato ocorre. Obviamente, sempre existem aqueles fãs que vibram de alegria com a perspectiva de terem seu mangá favorito acessível em formato físico. Mas mesmo estes não deixam de apontar uma ou outra “falha” na tradução. “A grafia do nome deste personagem foi mudada”, ou “o nome desse personagem está na ordem ocidental, não oriental”, ou ainda “removeram o ‘-kun’, ‘-san’, ‘-sama’, etc.”, além de diversos outros exemplos. Ao que parece, desde que se tornou possível ler os mais diversos mangás online (seja na forma de traduções feitas por fãs, seja no original em japonês) os fãs brasileiros tem buscado uma suposta fidelidade ao original que as grandes editoras parecem não conseguir atingir.

Justiça seja feita, esse não é um fenômeno recente. Desde que começaram a vir para o ocidente, os mangás tem lutado para agradar a gregos e troianos. Inicialmente publicados como quadrinhos ocidentais, com a imagem original precisando ser “espelhada” de forma a poder ser lida da esquerda para a direita, pressões dos fãs e pioneiros bem sucedidos mostraram que o mangá tal e qual era publicado no Japão (ou seja, com a leitura se fazendo da direita para a esquerda) também o poderia ser no ocidente. A mesma lógica, ainda, afetou também a colorização: se inicialmente muitos mangás foram coloridos ao começarem a ser publicados no ocidente, em algum tempo publicações em preto e branco se mostraram perfeitamente aceitáveis para os leitores. E com os aspectos estéticos aproximados do original, a “bola da vez” das críticas é, na atualidade, o conteúdo em si. E é aqui que entra uma quase aversão às traduções ocidentais feitas pelas grandes editoras, que de fato possuem um históricos de alterações do conteúdo dos mangás. Mas o que eu quero tratar aqui é: estas alterações são assim tão ruins? Deveriam nossos mangás serem pura tradução literal do original, ou é aceitável que seja uma “adaptação”, mudando elementos ao bel prazer?

Na minha opinião, pensar a questão nestes termos é um erro, e um que eu vejo muitos cometerem. Em primeiro lugar, pois exagera os conceitos de “tradução” e de “adaptação”. Em segundo lugar, pois gera uma falsa dicotomia, como se “tradução” e “adaptação” fossem conceitos mutuamente excludentes, o que não são. Finalmente, e em terceiro lugar, pois é uma questão que se fecha apenas nessa dicotomia, sem considerar o que é talvez o elemento mais importante de uma tradução: a transmissão de uma certa mensagem. Mas vamos com calma. Irei tratar sobre estes três pontos, mas comecemos com o primeiro.

Como eu disse, a questão tal e qual foi formulada faz uma generosa expansão dos conceitos de tradução e adaptação. No primeiro caso, essa expansão tem o resultado de uma quase camisa de força sobre o tradutor: este deve se limitar a traduzir, palavra por palavra, exatamente (e somente!) aquilo que está no mangá. Nenhuma mudança é admitida, a fim de não se perder o conteúdo original. Isto é pura e simplesmente impossível. Se fossemos ficar no campo puramente da sintaxe, o japonês possui uma ordem diferente para o trio “sujeito-verbo-objeto” do que o português. Isto por si só precisa ser alterado, do contrário a frase corre o risco de ficar sem sentido para nós. Exemplo claro (embora em menor intensidade) vem da língua inglesa, mais familiar à maioria de nós e onde o adjetivo vem antes daquilo que ele determina. Assim, se eu for traduzir “red ball” é preciso inverter as palavras, a fim de não ficarmos com uma tradução como “vermelha bola”. Mas a necessidade de alterações em uma tradução não para por ai. Muitas vezes, uma palavra em uma língua não possui qualquer correspondente direto em outra. Assim, para traduzir a palavra acaba sendo necessário usar de toda uma frase que traga, em si, o sentido daquela palavra. A mesma lógica, ainda, precisa ser aplicada a gírias ou expressões populares, que podem se mostrar completamente sem sentido para o leitor não-japonês.

Já o conceito de “adaptação” é estendido no sentido oposto. Muitos comentários depreciativos sobre as traduções ocidentais parecem seguir o pensamento de que uma “adaptação” significa uma mudança total e completa daquilo que os tradutores bem entenderem, como se a estes fosse dada a liberdade de praticamente criarem uma nova história. Obviamente não é assim. Uma adaptação, no contexto em que estamos, nada mais é do que o que foi descrito acima: uma alteração necessária da tradução literal a fim de se obter o mesmo sentido das palavras usadas no original. O que nos leva ao segundo ponto que coloquei: tratar “adaptação” e “tradução” como conceitos mutuamente excludentes significa gerar uma falsa dicotomia simplesmente porque ambos são complementares. Toda tradução exige ao menos um pouco de adaptação, ao passo que toda adaptação é, em certo sentido, uma forma de tradução. E a enorme maioria das pessoas sabem disso.

Quem leu até aqui certamente acredita que eu estou exagerando. É obvio que uma tradução total e completamente literal é impossível. É obvio que algum grau de adaptação é necessário. Pois bem: de fato eu exagerei. O intento foi o de levas às ultimas consequências as críticas mais comuns às traduções, a fim de se provar uma hipótese: ninguém faz uma crítica ao conceito de tradução em si, mas sim a pontos específicos da tradução. Apesar de muitos esbravejarem contra as traduções, parece ser um consenso geral que algum grau de mudança é aceitável ou mesmo necessário. O que levanta a questão: por quê? Por que se critica a inversão de sobrenome-nome (modelo oriental) para nome-sobrenome (modelo ocidental), mas não se critica a ordenação das frases a fim de se encaixarem no padrão sujeito-verbo-objeto? Por que se critica uma dada forma de transliteração ou romanização do nome, mas não se critica quando toda uma frase é alterada a fim de traduzir uma palavra ou expressão que não existe em nosso vocabulário? Por que se pede a permanência de determinativos como “-kun” ou “-san”, mas se aceita que todo o restante da obra seja traduzido ao português? Em suma: onde se traça a linha do que é aceitável mudar e do que não é?

E é aqui que chegamos no meu terceiro ponto. Como eu disse, muitas discussões sobre traduções ignoram o próprio propósito da tradução: tornar compreensível aquilo que não o é. Quando um tradutor opta por mudar a grafia de um nome, a ordem de um nome ou mesmo por remover determinativos como “-kun” ou “-san” ele está tentando tornar a obra mais compreensível para um público que não está acostumado com esta forma de escrita ou com estes termos. E, na minha opinião, é justamente quando uma editora não faz isso que surgem alguns resultados bizarros. Um bom exemplo do que digo é o mangá de K-ON publicado pela New Pop aqui no Brasil: na tentativa de traduzirem o constante uso do “-senpai” pela personagem Azusa, o resultado foram coisas como “veterana Yui” ou “veterana Mugi”. Enquanto tradução literal está impecável. Mas torna uma forma de tratamento respeitoso em algo quase cômico, de tão pouco sentido que faz para nós, ocidentais, falar dessa forma. Outro exemplo pode ser encontrado no mangá Magi: O Labirinto da Magia, da editora JBC: na tentativa de traduzirem o termo “onee-san”, acabamos com Aladim sempre se referindo à Morgiana como “a moça”, mesmo quando falando diretamente com ela, como se o garotinho fosse incapaz de dizer a palavra “você”!

Para mim, o propósito de qualquer história é causar a sensação de imersão. É prender o leitor à trama e fazê-lo vivenciá-la pelos olhos das personagens. Qualquer coisa que quebre essa imersão é, assim sendo, e na minha opinião, prejudicial. Por que estou falando isso? Porque situações como as descritas acima fazem justamente isso: quebram a imersão. Ao fazer a personagem falar de uma forma que não é comum ao vocabulário do leitor, cria-se um sentimento de artificialidade e de estranheza para com aquela situação que quebram o sentimento de imersão.

Certamente, neste ponto alguém pode fazer a seguinte objeção: os meus exemplos foram de tentativas de traduzir termos que não possuem um correspondente preciso no português. O termo “-senpai”, embora signifique, de fato, “veterano”, não encontra qualquer correspondente em nossos pronomes de tratamento, o mesmo valendo para termos como “-kun” ou “-san”. Qualquer tentativa de tradução, assim sendo, certamente teria um resultado no mínimo cômico. Neste caso, o correto seria a não tradução, mantendo o termo japonês original. Mas aqui surge outro problema cultural: e aqueles que simplesmente não sabem o que estes termos significam? É preciso lembrar que muitos dos leitores de mangá são leitores casuais que não possuem nenhuma noção de japonês. Inserir esses termos pode gerar uma estranheza ou confusão que terminaria por causar o mesmo sentimento de estranhamento que eu citei mais acima. Mesmo no caso de se colocar, por exemplo, uma nota de rodapé explicando o termo: ao fazer isso, o autor da tradução estaria forçando o leitor a desviar sua atenção da história para a explicação do termo, causando novamente a interrupção da imersão.

Agora, é preciso dizer que muitos dos críticos das traduções tem um argumento bastante sólido: a questão cultural. Ao se optar pela não tradução ou não transcrição de termos, ao se optar por adaptar os nomes ao padrão ocidental de nome-sobrenome, ao se optar por “ocidentalizar” o texto, acaba-se perdendo muitas das nuances que a obra original possui e que muito podem ensinar sobre a própria cultura japonesa. E, apesar de eu acreditar que devamos priorizar a imersão sobre qualquer pretenso caráter “educativo” dessas obras de ficção, eu certamente entendo esse sentimento de “falta alguma coisa” que a ausência desses termos dá. Infelizmente, não é como se eu pudesse propor qualquer tipo de solução, inclusive pelo que eu disse antes: onde traçar a linha entre o que deve ser traduzido e o que deve ser deixado no japonês original? Quantas notas de rodapé um mangá deve ter antes de se tornar um pseudo-dicionário? Mas, também, como passar exatamente as mesmas nuances que o japonês consegue sem criar uma frase demasiado artificial, que quebre o sentimento de imersão? Eu não sei. E, sinceramente, ainda não encontrei alguém que tenha a resposta. Por isso, na minha opinião, o melhor que podemos fazer é o que mencionei: priorizar ao sentimento de imersão, mesmo que isso signifique deixar de lado termos que não podem ser traduzidos sem o quebrar.

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2 comentários sobre “O que traduzir?

  1. Imo, quanto mais notas de rodapé melhor. Gosto de dicionário mesmo~ (principalmente porque, com o tempo, elas se tornam desnecessárias)

    Eu realmente vejo que qualquer tipo de tradução é prejudicial e adoraria entender japonês pra ler direto na fonte. E por isso acho que quanto menos tradução, quanto mais coisa original, melhor… Então sempre fui a favor de, por exemplo, manter os honoríficos.

    Até porque, por exemplo, se eu não conheço o termo “-sempai”, leio pela primeira vez e vou procurar no rodapé, da segunda vez que eu encontrar o mesmo termo a quebra de imersão não aconteceria novamente…

    O ideal seria trazer o texto original, e em cima de cada kanji um asterisco com a tradução? Sim, seria~ Mas realmente, seria um saco ler… O ideal é acrescentar alguns termos no outro idioma aos poucos, pra que não só a leitura fique fluída, mas o leitor passe a incorporar os termos ao seu vocabulário normal (se não me engano, isso é até uma estratégia comum pra quem tá aprendendo um novo idioma).

    …o que é impossível de fazer no caso de editoras já que precisam satisfazer ao mesmo tempo um grupo enorme de leitores, cada um com um nível diferente de domínio da língua…

    No fim, eu abandonei esse tipo de discussão; eu só admito que toda tradução implica em perda de detalhes interessantes (pra dizer o mínimo), e só posso esperar pela oportunidade de aprender japonês.

    Particularmente tenho problemas com as traduções da NewTokyo. Já li algumas e acho bem razoáveis, quando muito…

    Mas claro, já vi traduções ótimas rodando pelo brasil. Gosto demais do trabalho feito em Rurouni Kenshin, por exemplo… O Kenshin vive se referindo como “este servo”, em referência ao pronome “sessha” que usa no original. “este servo” causa bastante estranheza quando se lê, mas isso é bom, já que ouvir “sessha” o tempo todo _também_ é estranho pra um japonês…

    (ah, belo texto, a propósito)

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    • Sei lá… Há de se considerar também que mangá não tem lá muito espaço para notas de rodapé xD Acabariam tendo de colocar umas páginas no final do volume só de glossário, incluindo nesse devidas explicações que teriam de ir da gramática à cultura só pra tentar explicar um certo termo. Não seria ruim, strictu sensu, mas me parece… desnecessário, eu diria. Um mangá não é um livro de “aprenda japonês”, então colocar muita informação técnica não me parece condizente com uma ideia de “pegue e leia pra relaxar um pouco” rs.

      Mas assim, eu falo isso no sentindo de “é a menos pior das soluções” xD Eu tenho de concordar: toda e qualquer tradução implica perdas, por todas as coisas que falei no texto. Então se haverão perdas, eu sou da opinião de que mais vale adaptar mesmo do que tentar uma tradução literal ou manter esta ou aquela palavra. Especialmente quando ninguém pode traçar uma linha clara entre “isto deve ser traduzido” e “isto deve ser apenas romanizado” (e olha que a própria romanização já é uma espécie de tradução e já implica em perdas de nuances linguísticas e culturais, ou ao menos eu imagino que assim seja). Mas é, por essas e outras que logo que o tempo (e a preguiça -q) permitir eu também quero ver se aprendo japonês rsrsrs

      Ah, e só fazendo um adendo ao comentário sobre ir acrescentando vocabulários japoneses aos poucos, não seria má ideia escolas de idiomas pensarem em ensinar o japonês a partir de mangás especializados que fossem colocando mais e mais do vocabulário japonês em seus quadrinhos… Sei lá, ideia que passou pela cabeça xD

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