Como julgar uma adaptação?

Esta é uma questão que muitos já se depararam com. Quantos de nós já não rangeram os dentes ao vermos uma má adaptação de uma obra que gostamos? Por outro lado, quantos de nós já não se doeram ao ler comentários depreciativos de uma franquia que gostamos embasados puramente naquela adaptação para cinema ou televisão? Quantos de nós já não começaram uma crítica ou uma explicação com “mas no mangá…” ou “no anime…”? Vou chutar por baixo e dizer que a resposta seria: muitos.

Quase todos nós temos aquela adaptação que detestamos. Seja uma adaptação de um anime no cinema, um mangá em anime, um livro em filme e por ai vai, via de regra todos nós já torcemos o nariz para algo do gênero. Muitas vezes, o fazemos com razão, afinal, de fato existem adaptações muito “pobres”, para dizer o mínimo. Outras vezes, porém, esse ressentimento para com a adaptação em questão vem, na verdade, de uma falsa expectativa. Grande parte dos que criticam alguma adaptação o fazem se embasando não no que a adaptação faz, mas sim no que ela não faz. Aquele evento que tinha no mangá e não apareceu no anime. Aquele personagem que não apareceu no filme e tinha no anime. Aquele objeto que o livro descreve em tantos detalhes para nem aparecer no filme. Em suma: espera-se da adaptação total e completa fidelidade aos eventos, personagens e situações da obra original. Não ocorrendo tanto, surge um sentimento de frustração que leva muitos a criticarem ferrenhamente uma adaptação, mesmo que sem qualquer argumento para além de “mas na obra original não era assim”.

Bom, vamos lá, nesse ponto muitos já devem ter percebido para que direção isso está indo, que é uma das posições que mais aparecem quando se trata do assunto de adaptações: não devemos julgar uma adaptação tomando por base o quão fidedigna ela é da obra original, mas sim enquanto obra em si, seja um filme, anime, mangá ou o que for. E, de fato, há certa verdade nisso. Toda e qualquer adaptação é, acima de tudo, isso: uma adaptação. Não é a obra original e, normalmente, é incapaz de colocar todo o conteúdo da obra original em si. Isso não é exatamente um erro: cada mídia tem suas limitações e ao se tentar passar uma obra de uma mídia para outra essas limitações acabam se mostrando evidentes, mas não há muito que se possa fazer a respeito. Exemplo perfeito é o mais recente filme dos Cavaleiros do Zodíaco, “A Lenda do Santuário”, criticado por muitos fãs por não apresentar, por exemplo, a passagem por todas as 12 casas (de novo, criticando a obra muito mais pelo que ela não é do que pelo que ela é): do ponto de vista prático, seria impossível condensar todo o arco das doze casas em uma hora e meia de filme e ainda mostrar todos os eventos da obra original, e esperar algo assim é simplesmente irrealista. Porém, eu acho que esse tipo de visão é demasiado conformista.

Não me levem a mal, eu mantenho uma coisa: antes de mais nada, devemos analisar qualquer obra enquanto ela mesma. Antes de criticar que personagem X tem outra cor de olho na obra original ou que evento Y acontecia em outro momento, devemos sempre tentar olhar para uma obra não pelo ângulo daquilo que a falta, mas sim pelo ângulo daquilo que ela tem. E isto eu estendo para qualquer tipo de crítica, não apenas para aquelas direcionadas a adaptações: vejam o quanto a obra combina com sua própria proposta, não com aquilo que você queria que a obra fosse. Eu já cansei de ver reclamações do tipo “este shonen é só porrada” ou “neste harém o cara vive pegando as garotas” ou coisas do tipo. Reclamações como essa simplesmente não fazem sentido. Se a proposta do anime é ser um harém e nele tem um harém, então ele só está condizendo com aquilo que queria desde o início, o mesmo valendo para shonens que tem muita pancadaria ou slice of life que tem muito dia-a-dia. Reclamar do conceito basilar de algo apenas me levaria a perguntar por que diabos está assistindo algo que tem aquela temática para começo de conversa. E o mesmo vale para adaptações, voltando agora depois dessa pequena digressão: a própria noção de “adaptação” já pressupõe mudanças, reclamar delas apenas porque na obra original era diferente é um tanto quanto problemático. O que eu quero dizer, porém, é que isso não significa fechar os olhos e aceitar toda e qualquer modificação.

Para me explicar melhor, eu gostaria de voltar ao que eu disse antes: toda adaptação é, antes de tudo, exatamente isso, uma adaptação. E, se por um lado, isso pressupõe modificações, também pressupõe permanências. Se fosse para fazer uma história completa e totalmente diferente da obra original, qual o sentido de dizer que ela é uma adaptação dessa dita obra? Este é o ponto em que, por exemplo, Dragonball Evolution cai. Aos que assistiram o filme, façam o seguinte exercício: supondo que os nomes das personagens, o designer do Picollo e as sete esferas do dragão fossem modificados, o que sobraria nesse filme que ao menos lembrasse dragonball? O uso de “esferas de energia” enquanto poder? O caráter colecionista da busca por objetos? O protagonista assumindo uma forma animalesca? Bom, esses não são exatamente elementos definidores por excelência. Imagino, inclusive, que se eu pedisse para elencarem um anime que contenha apenas uma dessas três características, alguns aqui terminariam suas listas quando One Piece estivesse acabando (rs). Mesmo que eu pedisse para citar um anime com todos os três elementos, certamente vários nomes surgiriam. E é este o ponto que eu quero deixar claro: Dragonball Evolution é uma má adaptação.

Ok, mas o que isso tem de novo? Certamente muita gente já criticou o quão ruim é o filme. Bom, meu ponto aqui é que essa não é exatamente a questão. Não entendam mal, enquanto filme isolado Dragonball Evolution tem sérios problemas, sim. Mas onde ele mais fracassa é em sua própria proposta. Criado para ser uma adaptação, ele se desvia tanto da obra original que sobra bem pouco para ele ser identificado com ela. No caso, seria como um anime se identificar como slice of life e começar com o protagonista indo parar em outra dimensão para enfrentar um dragão: a proposta original e a execução em si divergem a tal ponto que a maioria diria que aquilo não seria um mal anime, exatamente, mas sim um mal slice of life. Resumindo, a partir do momento que uma obra se diz uma adaptação de outra, ela precisa lembrar essa outra de alguma forma. Mesmo que buscando ser a si própria, e não apenas uma cópia de uma outra obra em uma nova mídia, a adaptação não pode ignorar a obra que adapta. E quando isso acontece, os fãs, na minha opinião, tem total direito de criticar. Só não exageremos: uma coisa é todo o mundo da obra ser completamente re-elaborado, outra coisa é este ou aquele personagem ter um cabelo de outra cor.

Isso dito, eu gostaria de voltar para uma outra questão: a da necessidade de se ver a obra original. Isto é exatamente aquilo que eu mencionei mais acima: quantos de nós já não criticamos um filme ou anime apenas para tomar como resposta “mas você não leu todos os doze mil volumes de mil páginas cada da obra original, não pode falar nada”? Ao mesmo tempo, quantos de nós já não vimos uma crítica a uma adaptação que gostamos e logo começamos nossa resposta com “bom, mas no mangá…”? É um pendular constante, uma questão que realmente parece dividir as pessoas. Mas, a meu ver, ela se dá porque essas, vou chamar de, “críticas às críticas” costumam ser muito mal formuladas.

Em primeiro lugar, deixem eu já tirar isso do caminho: não, eu não acho que você deve ver a obra original para criticar uma adaptação. Uma adaptação é uma obra em si e tem o dever e o direito de ser julgada como tal. Se for boa, então é boa. Se for ruim, então é ruim, não importa o quanto a obra original seja melhor. Um bom exemplo recente é o caso de Sword Art Online: quase toda crítica ao anime é rebatida com “mas na light novel…”. Uma adaptação precisa se sustentar enquanto a si própria. Se algo nela não está bom, o quão perfeita é a obra original é completamente irrelevante. Isso pode parecer contraditório com o que eu disse mais acima, mas observem que eu estou colocando aqui uma distinção entre julgar uma adaptação enquanto obra em si e julgar uma adaptação enquanto adaptação. Qualquer pessoa que veja a obra pode dar a sua opinião sobre ela, ao passo que qualquer um que tenha visto a obra original tem também o direito de apontar onde uma adaptação falha em ser exatamente o que deveria ser: uma adaptação (e desculpem se ficou confuso isso x_x). Isso dito, o que eu gostaria de apontar é: se você faz uma critica a um dado elemento de uma obra e alguém te diz que esse dado elemento é melhor explicado/inexistente na obra original, por que não dar ouvidos?

Vamos parar um momento e observar como ocorre, normalmente, as conversas desse tipo. Via de regra, começa com alguém que parece ter acordado de mal humor descendo o porrete em algum anime, filme, ou o que for. Um fã da mencionada obra logo aparece e, ofendido pelo comentário, mas não tendo nenhum argumento embasado na obra em si para responder à crítica, começa sua argumentação com “mas no anime/mangá/light novel…”. Como resultado, o primeiro a comentar logo responde “mas eu to falando dessa adaptação, não preciso ver a obra original”. Resultado? Duas pessoas irritadas. Daora vida. Porém, vamos imaginar que esse cenário fosse um pouco mais “civilizado”. Vamos imaginar que o fã respondesse com algo como “sabe, tem razão, o anime/filme/mangá deixou essa parte bem ruim mesmo. Na obra original ficou bem melhor e…”. Pronto, já fica muito mais fácil desenvolver uma conversa a partir daqui.

Eu vou falar por mim: quando eu digo como ocorre na obra original, eu normalmente procuro mostrar que A) a pessoa tem um ponto e a adaptação de fato pecou naquele assunto, e B) a obra original é melhor nesse aspecto, então se foi só isso que te desagradou, de uma chance à obra original. O que me parece algo bastante válido a se dizer. Claro, se as críticas forem à própria temática da obra, ai não tem muito o que falar, mas se forem criticas à pontos específicos e alguém te diz que elas são resolvidas olhando a obra original, talvez valha a pena ir ver a dita obra. Quem sabe, pode acabar sendo uma boa surpresa. No fim o que eu quero dizer é: tenhamos um pouco de respeito uns pelos outros. Aprendamos um pouco a ouvir o que o outro tem a dizer. Claro, muitas críticas são infundadas e muitas ditas “explicações” só confundem mais ainda. Mas isso não muda o fato de que muitos pontos válidos podem ser vistos se pararmos e tentarmos entender um pouco melhor a opinião uns dos outros.

 

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