Magi: The Labyrinth of Magic – Um Conto Maravilhoso

Capas dos volumes 1 e 2 de Magi: O Labirinto da Magia, pela editora JBC
Capas dos volumes 1 e 2 de Magi: O Labirinto da Magia, pela editora JBC

Publicado semanalmente na revista japonesa Weekly Shonen Sunday desde dezembro de 2009 (fun fact: apesar de seu nome, a revista é publicada às quartas feiras. Eu também não entendo), Magi: The Labyrinth of Magic é uma obra da autora Shinobu Ohtaka que vem se provando bastante popular entre os japoneses, chegando a receber o prêmio de melhor mangá shonen no 59º Shogakukan Manga Award. E, agora, a série recebe sua publicação no Brasil pela editora JBC, sob o título de Magi: O Labirinto da Magia, com o segundo volume tendo sido lançado no final de Agosto deste ano.

Com um mundo embasado nos contos de “As Mil e Uma Noites” (em japonês, “Sen’ichiya Monogatari”… Sim, eu vi esse fato inútil recentemente e quis colocar em algum lugar u.u), a história de Magi acompanha o trio Aladdin (Aladim na tradução da JBC), Alibabá (Ali Babá na tradução brasileira) e Morgiana, conforme viajam pelo seu vasto mundo, entrando em contato com as mais diversas potências e líderes políticos, perigos mágicos e humanos, dungeons repletas de tesouros, entre outros elementos. Com uma história já bastante vasta, cobrindo mais de 200 capítulos em mais de 20 volumes, para este post, porém, eu vou me focar nos dois volumes já lançados no Brasil, que em si encerram o primeiro arco do mangá. Então… É, não precisam se preocupar com spoilers muito pesados xD.

Como podem imaginar, dado o recorte que fiz, me concentrando apenas nos primeiros 17 capítulos da história, este post, diferente dos anteriores, não irá tratar sobre as grandes questões que a obra como um todo levanta. Em parte isso se deve ao fato de que a obra ainda não está concluída. Com o mangá ainda em publicação no japão, é difícil dizer com certeza quais direções estas grandes questões tomarão. Só para não deixar essa explicação minha muito vaga, um dos pontos axiais da obra como um todo é o conceito de destino. Até aqui, a história parecia favorecer uma perspectiva favorável à noção de destino, mas eventos recentes no mangá levantam indícios de que talvez essa perspectiva comece a se distorcer um pouco. Em suma, prefiro esperar para ver antes de fazer uma postagem sobre o assunto. Mas enquanto isso, há uma temática que pode ser tratada apenas com o primeiro arco da obra. E esta temática, que será então o assunto do post, é a do Conto Maravilhoso.

Primeiro, vamos entender melhor esse conceito. Sobre este assunto, Nelly Novaes Coelho, estudiosa brasileira da literatura infantil, diz que “as narrativas maravilhosas decorrem do mundo da magia, da fantasia ou do sonho, onde tudo escapa às limitações ou contingências precárias da vida humana e onde tudo se resolve por meios sobrenaturais”[1]. Estas histórias teriam algumas características em comum, que eu vou explorar mais a frente no texto, mas é importante apontar que, e apesar disso, esta não é uma categoria homogênea. Explicando melhor, podemos dividir a categoria “Contos Maravilhosos” em, e ainda seguindo as palavras de Nelly Novaes, pelo menos duas categorias menores distintas: a dos Contos Maravilhosos e a dos Contos de Fadas. Eu vou entrar em mais detalhes sobre estes dois tipos de histórias, mas por agora o importante é apenas lembrar que esta diferença existe e que o meu ponto é o de que Magi apresenta elementos vindos das duas categorias.

Antes de falar dessas categorias individuais, porém, vamos parar um pouco para ver como o conceito mais geral de Conto Maravilhoso (naquele sentido que eu primeiro mencionei) se aplica a Magi. Bom, mas antes de mais nada, é preciso deixar aqui um aviso: para este post eu estou tratando Magi como uma obra exemplar, isto é, uma obra que serve de exemplo para explicar um conceito (no caso, o de Conto Maravilhoso). Muito do que eu irei dizer aqui sobre o assunto “Conto Maravilhoso” poderia ser aplicado a uma infinidade de outras obras, incluindo outros animes (digo, basta lerem a definição que Nelly Novaes deu: a imensa maioria dos shonens japoneses se encaixaria muito bem nela). Além disso, e verdade seja dita, é bem pouco provável que a autora estivesse pensando exaustivamente em como fazer sua história parecer com um Conto Maravilhoso. Na verdade, muitas das semelhanças de Magi com os elementos que eu irei depois elencar como característicos dos Contos Maravilhosos se devem, muito provavelmente, ao fato de a obra ser embasada em uma das maiores coletâneas de contos do tipo já feitas: as Mil e Uma Noites. Só para deixar isso claro: Magi não trata do assunto Contos Maravilhosos, ele é um Conto Maravilhoso, é o que quero dizer.

Em 2012, o mangá ganha uma adaptação para a televisão, com a segunda temporada lançada já no ano seguinte: 2013
Em 2012, o mangá ganha uma adaptação para a televisão, com a segunda temporada lançada já no ano seguinte: 2013

Voltando, depois desse aviso, ao assunto, é importante dizer que já faz um bom tempo que pesquisadores vem tentando achar as características comuns a todos os Contos Maravilhosos. Um trabalho em particular, porém, é sem dúvida um dos mais influentes, e este é o do russo Vladimir Propp (1895-1970). Ao longo de sua carreira, Propp cunhou o conceito de “funções”, aplicando-o aos contos, em especial os contos maravilhosos russos. Segundo sua pesquisa, os personagens, eventos e objetos em um conto maravilhoso cumpriam sempre uma certa função na história, sendo que o número de funções seria limitado: existiriam apenas 31. E ainda que uma história não apresentasse, necessariamente, todas elas, certamente tudo o que ela apresentasse cairia em alguma dessas 31 funções. Infelizmente, e isso talvez tranquilize alguns leitores, eu não vou tratar aqui individualmente de cada uma dessas 31 funções a fim de ver se Magi as segue ou não. Isso simplesmente deixaria o post desnecessariamente grande (bem… mais do que o normal xD). Ainda assim, era importante dizer que esta pesquisa existiu, até pela importância que teve, chegando a influenciar diversos pesquisadores, incluindo, obviamente, Nelly Novaes.

Em seu livro “A Literatura Infantil”, Nelly Novaes Coelho, procurando sintetizar as ideias de dois outros pesquisadores, Propp e Greimas, apresenta-nos cinco elementos que seriam estruturais nos contos maravilhosos. Estes cinco elementos começariam com a aspiração ou designio, a qual o herói do conto irá perseguir saindo de casa, encontrando em seu caminho diversos desafios, os quais conseguirá superar com a ajuda de um auxiliar mágico, finalmente conquistando o que se buscava[2]. Certamente, o percurso descrito, que em muito lembra o conceito de Jornada do Herói de Joseph Campbell, pode ser encaixado em um escopo ridiculamente grande de obras, antigas e modernas, o que apenas comprova o quanto estas características merecem o título de “imutáveis”. Mas vamos nos concentrar em Magi e ver como essas características aparecem na obra (ou, melhor dizendo, no primeiro arco da obra).

E é aqui que aquela distinção que eu falei mais cedo se torna importante. Isso porque os Contos Maravilhosos e os Contos de Fadas diferem no tipo de aspiração ou desígnio. No caso dos Contos Maravilhosos (agora entendido como uma sub-categoria dentro dos Contos Maravilhosos… É, eu sei que é confuso, mas vamos ver se eu consigo apresentar isso de forma clara rs), a motivação para o início da história é sempre de caráter material ou social: a busca por riquezas, por ascensão social, por poder, etc. Já no caso dos Contos de Fadas, a motivação tem um caráter espiritual ou existencial. Estas diferenças talvez se devam ao local onde surgiram estes tipos de narrativas: os Contos Maravilhosos se originaram no Oriente Próximo, ao passo que os Contos de Fadas tem origem entre os povos Celtas, na Europa. Seja como for, é uma distinção importante a se fazer, isso porquê Magi nos apresenta ambas as motivações.

Eu gostaria de lembrar a todos que os dois efetivos protagonistas de Magi são Aladim e Ali Babá. Individualmente, cada um representa um aspecto dos Contos Maravilhosos (agora entendido como aquele quadro geral, não mais como uma sub-categoria). Aladim, em sua busca por compreender mais sobre si próprio, está em uma busca claramente existencial, ao passo que Ali Babá, em busca de grandes riquezas, está em uma busca bem mais material. Aladim encarna aos Contos de fadas, enquanto que Ali Babá encarna os Contos Maravilhosos (agora sim, a sub-categoria, não o quadro geral… Deus, isso é confuso x_x).

A partir daqui, a jornada de ambos se torna bastante semelhante. Para atingirem seus objetivos, ambos deixam suas “casas” (Aladim saindo do “Quarto Resistente”, onde vivia aprisionado, e Ali Babá deixando seu emprego como motorista de carroças), partindo em direção à Dungeon localizada na cidade onde Ali Babá vivia (um enorme prédio, em cujo interior haveria um caminho até enormes riquezas e objetos mágicos). Ali, enfrentam perigos constantes, incluindo ai desde criaturas monstruosas até inimigos humanos. As características voltam a se separar, porém, quando chegamos na parte do auxiliar mágico: para Aladim, o Auxiliar Mágico é, sem dúvida, seu Djin Ugo. Gigante dotado de grande força, mas também de habilidades mágicas, o Djin é o principal responsável pela derrota de várias das ameaças a Aladim. No entanto, no caso de Ali Babá, nós podemos dizer que seu Auxiliar Mágico não é outro se não o próprio Aladim.

É interessante notarmos aqui como a figura do garoto Aladim pode ser comparada à figura da Fada dos Contos de Fadas. Com Nelly Novaes Coelho apontando que as fadas são seres “dotados de virtudes positivas e poderes sobrenaturais, que interferem na vida dos homens, para auxiliá-los em situações-limite (quando nenhuma solução natural poderia valer)”[3], Aladim certamente se encaixa nessa definição. Mas não é apenas isso. Um outro elemento curioso é a origem da palavra “fada”, que pode ter raiz na palavra latina “fatum”: destino. Como “Mago da Criação”, “aquele que escolhe reis”, Aladim já apresenta, nestes primeiros volumes, fortes ligações com o conceito de “destino” (que se desenvolverão com muito mais força nos volumes que ainda virão). Para além disso, em boa medida ele subverte a busca de Ali Babá. Apesar de se iniciar como uma busca por riquezas, o segundo volume mostra sua transformação para uma experiencia de auto-conhecimento, com o final do segundo volume mostrando Ali Babá abandonando toda a sua riqueza conquistada e partindo em uma viagem de cunho bem mais espiritual e existencialista do que a anterior, tal como, agora, um protagonista de um Conto de Fadas. Desnecessário dizer depois disso, mas ambos obtém o que foram procurar na Dungeon: Aladim sai de lá tendo um pouco mais de noção sobre quem ele é, enquanto Ali Babá sai com enormes fortunas.

Sem título3
A volta para o mundo mundano encerra o primeiro arco de Magi.

Neste ponto, encerra-se o primeiro arco. Interessante notar, ainda, como ele assimila muitos dos elementos que Nelly Novaes aponta como típicos dos contos maravilhosos, embora muitos mais se encaixariam se considerássemos todos os volumes (por exemplo, ainda que neste primeiro arco já vemos elemento como o uso de talismãs, elementos como o destino, a forte presença de certos números [no caso, o número 3, presente na figura do trio principal Aladim, Ali Babá e Morgiana], a relação da magia com a divindade, entre outros somente ficarão mais claros conforme a história avança). Além disso, diversos dos valores ideológicos que ela aponta também se mostram presentes, como uma preocupação fundamental com a sobrevivência (em nível mais básico, do comer, dormir, etc), a oscilação entre uma ética maniqueísta e outra relativista, a importância da astucia e esperteza, etc.[4].

Por mais que eu adoraria entrar em detalhes de como cada um desses elementos e ideologias aparecem ou vão aparecendo ao longo da obra, algumas palavras finais ficam para uma pergunta: por que olhar essa questão através de Magi? Como eu mencionei mais cedo, uma infinidade de outras obras, antigas e modernas, trabalham com esses elementos. Além disso, diferentemente dos animes dos meus posts anteriores, Magi capta esses elementos muito mais provavelmente por “acidente” do que por intenção (isto é, como eu disse, não me parece haver um esforço intensivo da autora de discutir a questão dos Contos Maravilhosos num geral). Pois bem, a explicação de porque Magi pode ser considerado assim tão exemplar é sua fonte de inspiração. Com seu universo baseado nos contos das Mil e Uma Noites, reconhecida inclusive por Nelly Novaes como a principal coletânea de contos maravilhosos (aquela sub-categoria, não o quadro geral), Magi acaba incorporando em si vários dos elementos de um conto maravilho, mas também recobre estes elementos com outros, providos dos contos de fadas (em especial, o caráter espiritual destes). Dessa forma, o que acaba por surgir é, efetivamente, uma obra que, e com um pouco de esforço, podemos definir como um Conto Maravilhoso moderno, uma obra capaz de re-atualizar muitos dos conceitos, ideias, ideologias e ensinamentos de todo um gênero literário antigo.

1 – Coelho, Nelly N. A Literatura Infantil (4ª ed.); São Paulo, Editora Quíron, 1987. Pág. 122

2 – Coelho, Nelly N. A Literatura Infantil (4ª ed.); São Paulo, Editora Quíron, 1987. Pág. 77

3 – Coelho, Nelly N. A Literatura Infantil (4ª ed.); São Paulo, Editora Quíron, 1987. Pág. 123

4 – Coelho, Nelly N. A Literatura Infantil (4ª ed.); São Paulo, Editora Quíron, 1987. Pág. 126-128

Imagens (na ordem em que aparecem)

1 – Site da Editora JBC

2 – Magi: The Labyrinth of Magic. Episódio 1

3 – Magi: The Labyrinth of Magic. Episódio 4

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2 comentários sobre “Magi: The Labyrinth of Magic – Um Conto Maravilhoso

  1. Olá, tudo bem?~ Eu só consegui ler o seu post agora, e adorei sua abordagem de Magi! Realmente, faz parecer que é uma obra muito legal e me deu vontade de ler, primeiramente. Aliás, eu sabia que Magi já estava grande, mas não fazia ideia de que já tinha mais de 20 capítulos! Que loucura.
    Eu também já estudei um pouco sobre essa coisa de contos maravilhosos e de Propp, e curti essa abordagem. Muito bom esse paralelo que você faz entre Ali Babá e propósitos materiais, e Aladim e propósitos existenciais. (◡‿◡✿) Curiosamente, o “usuário de magia” é o que tem propósitos existenciais, e Ali Baba se apoia nele, né? Não posso dizer muito porque não conheço o mangá, mas realmente parece lindinho!
    Queria agradecer pelo post, e pedir pra que continue o bom trabalho de trazer pensamentos diferentes a respeito dos animes/mangás, que agreguem informações! ♡

    Curtido por 1 pessoa

    • Olá ^-^ Fico feliz de saber que gostou do post =)

      De fato, Magi já é uma obra bem grande rs. E não dá margem de acabar tão cedo, embora pareça estar chegando em algum clímax já. Mesmo assim, muitos capítulos ainda devem vir. O que é bom. O mundo de Magi é mesmo bem vasto e merece ser muito bem explorado, coisa que a autora consegue fazer muito bem, ao menos na minha opinião rs.

      Ah, e realmente, o Alibaba se apóia muito no Aladim, que por sua vez lhe serve muito de guia (o que não deixa de ser engraçado o jogo que a autora fez, colocando um garotinho de aparência de uns 10 anos com uma sabedoria digna de muitos idosos por ai rs). E sim, o fato daquele que usa magia ser o que busca conhecimento (que é a base do problema existencial do Aladim rs) não é nem um pouco “acidental” e é de fato importante depois para um dos arcos da história. Foi uma jogada muito boa da autora, nesse sentido rs.

      E eu que agradeço o comentário ^-^ Como autor das postagens, é sempre bom saber quando as pessoas estão gostando do que estão lendo =)

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