Anime é Desenho?

 

Uma discussão que ganhou popularidade especialmente após o advento do facebook e de várias e várias páginas dedicadas a animes, a questão de se anime é ou não “desenho” vez ou outra ainda volta a aparecer. Então, eu decidi dar a minha opinião a respeito: é, afinal, anime um desenho ou não?

Bom, antes de começar, eu quero definir melhor o que se pode entender por “desenho”, ou ao menos o que eu vou usar como definição. Quando eu me referir a desenho, estarei me referindo especialmente às produções animadas ocidentais, tais como as feitas nos Estados Unidos, Canadá e Europa. E eu não estarei me referindo ao puro ato de desenhar. Obviamente, a técnica de produção de ambos, tanto animes japoneses como desenhos animados ocidentais, é bastante semelhante, se não idêntica. Nestes termos, anime é, obviamente, “desenhado”, mas podemos dizer que ele é um “desenho” tal e qual coloquei?

Aqui normalmente entra a objeção mais comum dirigida a quem defende que a resposta seria “não”: no Japão, “anime” é usado para definir toda e qualquer produção animada. Ou, em suma, para o Japão anime é desenho. Isto parece encerrar a questão, mas apenas até você saber que “óculos” é latim para “olhos”. Com o passar do tempo, transmissão oral e modificação da língua, uma dada palavra pode perfeitamente assumir significados distintos quando em outro tempo e lugar. Falar que no Japão anime é desenho encerra a questão para o caso japonês, mas não resolve muita coisa quando se trata do mundo ocidental.

Devemos ter em mente que, pensando objetivamente, uma letra por si só não significa mais do que alguns traços ordenados de uma certa maneira. O mesmo pode ser dito de uma palavra como um todo: é a interpretação humana que atribui àqueles traços algum tipo de significado, ao passo que é o consenso sobre esta interpretação que permite a um povo falante de um mesmo idioma comunicar-se entre si por meio da escrita.

Pare por um momento e pense: quando eu falo “anime” o que vem na sua cabeça? Mesmo que você não seja fã de animes, é provável que obras como Dragonball ou Pokemon sejam a primeira coisa que venham à mente. Dificilmente alguém no ocidente irá pensar em Bob Esponja, Liga da Justiça ou mesmo Avatar ao ouvir essa palavra, e ainda que o contrário seja plenamente possível, com a palavra “desenho” remetendo a algum anime, me parece que, imageticamente falando, nós, aqui no ocidente, criamos uma distinção entre “anime” e “desenho animado”. Ou, em poucas palavras, parece haver um consenso mental no mundo ocidental de que a palavra “anime” significa algo diferente daquilo que ela significa no Japão.

Mas esta distinção se sustenta? Do ponto de vista técnico nós já vimos que não, mas e do ponto de vista estético? Alguns dos que defendem que anime não é desenho costumam fazer comparações esdrúxulas a fim de apontar diferenças estilísticas, como comparar Bob Esponja com Neo Genesis Evangelion. Ainda assim, apesar destas comparações e considerando o quadro geral, me parece que não é demais considerar que exista, entre as produções ocidentais e orientais, uma diferença estilística.

Façamos uma comparação mais justa do que se normalmente se faz e peguemos os desenhos animados da Marvel e da DC, comparando-os com obras infanto-juvenis japonesas, a exemplo de alguma adaptação de algum mangá da Shonen Jump, e podemos encontrar algumas diferenças estéticas na forma de desenho das personagens. Obviamente, existem obras que se distanciam do padrão, e isso para os dois lados. Avatar, The Last Air Bender tem clara inspiração estilística nas obras japonesas, ao passo que animes como Panty And Stocking With Garterbelt tem obvia inspiração no estilo ocidental. É preciso sempre ter em mente de que foram os quadrinhos americanos a principal inspiração para o mangá japonês, ao passo que a popularidade que as produções japonesas ganharam no ocidente segue inspirando artistas ocidentais. Este constante diálogo, porém, não significa equivalência estética, algo que eu sinceramente não vejo neste caso.

O que dizer, então, da história? Os que defendem que animes não devem ser comparados a desenhos animados costumam insistir que aqueles possuem uma história mais profunda ou “adulta” do que estes. Isto, porém, é uma ilusão criada a partir de um gosto. Aqueles que gostam de histórias mais profundas ou mais complexas obviamente tenderão a procurar mais e mais histórias do tipo. A partir deste ponto, surgem comparações com desenhos animados exibidos na televisão, estes voltados especificamente para o público infantil (e não infanto-juvenil, como muitas das obras exaltadas pelos fãs de animes). Comparar algo como Fullmetal Alchemist com algo como Regular Show é uma comparação injusta: ambas as obras tem um público alvo bastante diferente. Uma comparação mais justa talvez fossem produções como as da Marvel e DC ou as séries da franquia Avatar com as obras infanto-juvenis do Japão, ao passo que nossas animações infantis teriam melhor comparação em animações japonesas como Hamtaro ou Doraemon.

Então, ainda que a distinção entre produções ocidentais e produções orientais possa se justificar no quesito estético, nos quesitos técnico e de trama não podemos apontar uma diferença efetiva entre ambas. Talvez justamente por isso ocorra o que eu falei antes: é plenamente possível, do ponto de vista das representações mentais, associar a palavra “desenho” a qualquer produção oriental, mas dificilmente a palavra “anime” é associada a alguma produção ocidental. Considerando que o imagético é aquilo que primeiro se nota, parece aceitável que duas estéticas diferentes recebam dois nomes diferentes. Ainda assim, uma pergunta me vem à mente: por que é tão importante deixar claro o pertencimento ou não dos animes à categoria de desenhos?

Em grande parte, eu acredito que aqueles que defendem que anime é desenho surgiram como uma reação àqueles que diziam o contrário. Talvez devido ao radicalismo das afirmações, ou mesmo à infantilidade dos argumentos, muitos começaram a combater esta posição, deixando de lado o caráter estético mencionado e se concentrando apenas no caráter técnico, tirando dai a conclusão de que anime é um desenho e que seria bobagem falar o contrário. Mas sendo esta a reação a uma ideia, de onde advém a ideia origina, isto é, de que anime não deve ser considerado “desenho”?

Em grande parte, esta ideia advém, a meu ver, de dois movimentos distintos. Por um lado, temos a visão social já consolidada de que desenhos animados são “coisa de criança”, produzidos apenas para crianças e assistidos apenas por crianças. Do outro lado, temos um grupo de adolescentes e pré-adolescentes que muito possivelmente tentam se afirmar enquanto não mais crianças. Fãs de animes, ficam sujeitos aos estereótipos de jovens infantilizados, o que provavelmente gerou a mencionada posição. Obviamente, o simples afirmar de que “anime não é desenho” não mudaria os conceitos de uma sociedade, mas serviria para que estes jovem se sentissem melhores consigo mesmos.

Se for pra dar aqui um veredito, eu diria o que já disse mais acima. Em primeiro lugar, em termos técnicos não existe nenhuma diferença significativa entre as produções ocidentais e as orientais. Do ponto de vista da história, ambas produções possuem obras voltadas para o publico infantil, adolescente e adulto, de forma que qualquer comparação a favor ou contra qualquer posição deve ser muito bem analisada. Finalmente, porém, noto sim a existência de uma diferença estilística entre as duas obras. Este último fator, aliada às mudanças de significado que uma palavra pode sofrer, me parece o suficiente para colocar como no mínimo aceitável que seja feita uma distinção. Esta distinção, porém, não tem qualquer caráter hierárquico. O fato de uma obra ser uma produção japonesa ou americana não a torna mais ou menos adulta nem mais ou menos infantil. Obras para todos os públicos existem em ambos os lados e é importante que sempre se lembre disso.

 

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